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As cartas dp Pe. Antonio Vieira e a retórica comunicativo-funcional. *Uma dimensão pedagógica*

29/07/2010

0. Introdução

Gostaríamos, antes de mais, de felicitar os organizadores deste Congresso Internacional pela oportunidade e pertinência de que ele se reveste, agradecendo a oportunidade concedida de relermos este polifacetado mestre de Portugalidade e de Cidadania ‑ duas das qualidades que mais sobressaem das suas Cartas, cuja actualidade aqui pretendemos sublinhar.

De seguida, informamos que o nosso corpus, embora tenhamos tido acesso a outras edições das cai‑tas vieirianas [1], é constituído pelas Cartas seleccionadas por António Sérgio e publicadas pela Editora Sã da Costa, em dois volumes, com os comentários do mesmo autor [2]. Lembraríamos que, exceptuando o caso das cartas referidas pelos números dois e três, considerando‑as A. Sérgio de estrutura paradigmática em relação às restantes, antecipando por isso a sua apresentação, a ordem seguida é a cronológica, o que oferece uma base temporal muito útil no relacionamento dos factos, por se aproximar da biografia.

1. Perspectiva pedagógica tradicional das Cartas de Vieira

Se os programas escolares actuais manifestam ainda qualquer preocupação com o nosso maior pregador do século XVII, não é, seguramente, devido ao interesse que as cartas, hoje, possam despertar. Outra era, porém, a situação há cem anos. Com efeito, se consultarmos aquele que foi, provavelmente, o mais divulgado manual da aprendizagem dos discursos no século XIX, concluiremos que, no que às cartas diz respeito, o P.e António Vieira assina vinte e duas das vinte e quatro cartas modelares aí apresentadas. Trata‑se da obra Logares Selectos dos Clássicos Portuguezes nos Principais Géneros de Discursos em Prosa, para Usos das Escolas, da autoria de A. Cardoso Borges de Figueiredo [3].

O estudo das cartas elaborado pelo autor e destinado à formação da futura elite dirigente burguesa, revela três coordenadas fundamentais: 1) a definição tradicional da carta, fundamentada numa breve passagem ciceroniana e numa longa citação de Francisco Rodrigues Lobo [4]: 2) a sua tipologia, sendo mencionada, na introdução, a do autor de Corte na Aldeia[5]; 3) as qualidades que as cartas devem revelar.

Para o orador romano, a carta era «uma mensageira fiel que interpreta o nosso ânimo aos ausentes, em que lhes manifesta o que queremos que eles saibam de nossas coisas, ou das que a eles lhes relevam.» [6] Rodrigues Lobo, por seu lado, destaca a relação do termo com a cidade de Cartago, tal como o termo pergaminho se relaciona com a de Pérgamo. Quanto às tipologias, elas não são coincidentes, mostrando‑se a divulgada nos séculos XVI‑XVII e atribuída a Cícero, bem mais coesa e fundamentada do que a das escolas do século XIX da qual, como veremos, seriam de esperar maiores preocupações de rigor.

Cícero agrupa as cartas em três géneros: a) domésticas, civis e mercantis ‑ caracterizando‑se como sendo de «negócio e das causas que tocam à vida, fazenda e estado de cada um»; b) de novas, de recomendação, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graça ‑ baseando‑se a sua caracterização na amizade, na galanteria e na recreação entre os seus intervenientes; c) públicas, invectivas, consolatórias, laudativas, persuasórias e outras, encontrando‑se a tipologia em aberto e sendo a sua característica fundamental a gravidade e o peso das suas matérias, tais como governação, questões religiosas, advertências a príncipes ou senhoras e coisas semelhantes.

A de Figueiredo abarca os seguintes tipos de cartas: de bons anos, de parabéns, de recomendação, de empenho, de súplica, de agradecimento, de pêsames, de consolação, de resignação, de desengano e escusa a um pedido, de participação, de despedida, de participação e de queixa, sobre política, com oferta. Para se ter uma ideia da importância que a epistolografia vieiriana adquire neste manual do século XIX, repetimos que, das vinte e quatro cartas apresentadas como modelos dos tipos mencionados, apenas duas não pertencem ao padre jesuíta e só o último modelo não contém um exemplar seu. Como afirmámos já, a distribuição das cartas de Vieira pelos tipos mencionados parece ser objecto de pouca ponderação tendo correspondido mais a uma simples rotulação das cartas a incluir e diferenciar por Borges de Figueiredo do que a uma autêntica tipologia assente em critérios claros e rigorosamente aplicados. Com efeito, que género seria esse das cartas com oferta? E qual a distinção entre as cartas de recomendação, de empenho e de súplica?

2. Para uma renovação da perspectiva pedagógica das cartas do P. António Vieira

A perspectiva pedagógica que advogamos para as Cartas do diplomata de D. João IV insere‑se num contexto mais abrangente, diacrónica e sincronamente, que é o contexto da retórica. Esta é para nós, como para Yvon Belaval, «uma busca ponderada e […] experimental sobre os meios da expressão, com vista a um fim prático.» [7] Para além disso, a retórica não é por nós concebível sem dois outros ângulos, com os quais forma o triângulo retórico: a Sociedade e a Escola. Temos assim:

Sociedade ——————————-                                    Retórica

|

Escola

Tal triângulo é historicamente preenchido por três conteúdos distintos, não se sucedendo no tempo, mas tornando‑se concomitantes, conforme vão surgindo, dando origem a três Retóricas diferentes, às quais correspondem Sociedades e Escolas diversificadas, devido ao seu desenvolvimento, crescimento e complexificação. Deste modo, temos a Retórica Clássica, própria da Grécia e de Roma, a Retórica Literário‑Cultural, emergindo no século XVI, ao lado da anterior, que perdura até hoje com a mesma actualidade, e a Retórica Comunicativo‑funcional, própria dos nossos dias. Em termos de caracterização, dir‑se‑ia que a primeira se apoia na inventio e reside no tribunal e no fórum; a segunda, na elocutio e forma, no início, os funcionários régios, mais tarde, os do Estado liberal, indo acantonar‑se na literatura; a terceira na dispositio, fixando‑se nas Organizações próprias do nosso tempo. Esta localização temporal não significa inexistência de manifestações das duas últimas retóricas na Antiguidade Clássica, ou da terceira durante o período de consagração da segunda. É o que acontece com as Cartas do P. António Vieira que, na nossa óptica, são uma etapa importante dessa terceira retórica, antes mesmo de a Sociedade, na sua globalidade, ter sentido a sua necessidade.

3. As Cartas de Vieira e a retórica comunicativo‑funcional

Esta retórica é constituída pelos produtos de escrita situados no âmbito da empresa, da imprensa, da publicidade e das organizações ou instituições. Ora, a gestão dos negócios da Realeza, da Pátria, e, poderíamos acrescentar, da Companhia, era para o Vieira das Cartas, seleccionadas por António Sérgio, objecto de um «zelo que […] só se acabará com a vida» [8]. Somos mesmo levados a afirmar que, em geral, a Pátria e o seu governo, particularmente em Portugal, depois das Descobertas, constituem a primeira grande empresa moderna, com ramificações várias, que ainda hoje seriam significativas como era a Casa da Índia [9].

Para além do elevado grau de perfeição alcançado pelas produções discursivas de Vieira, nesta retórica, registemos o facto de ele, no género epistolar, se situar na peugada de Damião de Góis [10], no desempenho de tarefas similares àquelas que, por essa Europa fora, desempenhou o diplomata da Restauração. Na Grécia, a teorização poética aristotélica é posterior à excelência alcançada pelas produções trágicas. Em Portugal, de igual modo, é depois do expoente alcançado pelos discursos epistolares destes e de outros mestres da retórica comunicativo‑funcional, o mesmo é dizer, dos discursos em situação empresarial, que nela vemos surgir um esforço teorizante.

É um outro mestre, como eles, que nos oferece uma obra a todos os títulos notável, em particular, pelas preocupações que revela na sistematização ou tipologização do género epistolar, facto de que Borges de Figueiredo não dá notícia e pelo qual não mostra interesse. Trata‑se de Francisco José Freire, também conhecido por Cândido Lusitano, e da sua obra didáctica, O Secretário Português [11]. De realçar nesta obra é a preocupação de enxertar a tipologia das cartas, aí apresentada, nos três géneros retóricos, como podemos ver [12].

De Parabéns
De Oferecimento
Demonstrativo De Agradecimento
De Aviso
De Louvor
Discursivas
De Desculpa
Cartas do Género: Judicial De Justificação
De Queixas
De Pêsames
De Recomendação
Deliberativo De Boas Festas
De Consolação
De Exortação
De Conselho

Mais próximo de nós, mas eivado do mesmo espírito de comunicação funcional, decorrente da mesma retórica comunicativo‑funcional, podemos encontrar a Correspondência Consular de Eça de Queirós [13], inserida numa outra organização institucional, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas reveladora dos mesmos pressupostos teóricos subjacentes à epistolografia goisiana e veiriana.

4. Estratégias retóricas na construção das Cartas de Vieira: o caso da antítese

4. 1. A antítese na retórica literário‑cultural e na retórica comunicativo‑funcional

Como ponto de partida, tomamos a afirmação seguinte de Jules Verest: «a arte consiste apenas em encontrar a forma sensível que manifesta a ideia em todo o seu esplendor; contudo, esta forma [linguística] não tem em si a sua razão de ser: ela existe apenas para manifestar a ideia» [14], encontrando‑se, assim, completamente subordinada à ideia. Da combinatória forma/ideia, desde a primeira leitura das Cartas, dois procedimentos se destacam: a antítese e a enumeração, encontrando o seu expoente máximo respectivamente nas cartas com os números 16 e 17. Ambos os procedimentos estão ao serviço da ordem, segundo a qual, «as palavras devem seguir‑se e agrupar‑se de modo a manifestarem a arrumação e a sequência das ideias [consistindo a sua função em] dar ao estilo a clareza e a força» [15].

Ora, a antítese é para a retórica literário‑cultural mais do que uma figura de estilo, ela é «a expressão viva de uma percepção viva» [16], nas palavras de um dos seus teorizadores, Gustav Lanson. Para a retórica comunicativo‑funcional, porém, a antítese não adquire menor relevância, pelo facto de ela instaurar um jogo acessível a todos os falantes e estruturar a mente na visão e organização do mundo, como destaca Blanche Grunig [17]. Ambos os autores nos oferecem finas análises da antítese, indo o primeiro no sentido da graduação da capacidade de ela agarrar o leitor e o segundo em direcção à posição e ao agrupamento das palavras antónimas.

Para Lanson a hierarquização estabelece quatro patamares.

1) Aliança surpreendente e inesperada de termos contrários ‑ o contrário é o que menos esperamos encontrar num objecto, pois é o que dele parece mais afastado. Ex. Devagar se vai ao longe.

2) Choque de palavras fazendo brilhar o contraste das ideias, sendo o choque tanto maior quanto menor for o número de palavras. Ex. Vá para fora cá dentro (Secretaria de Estado do Turismo).

3) Oposição de palavras com sons análogos ‑ relevando o contraste dos sentidos: ainda antes da inteligência, já a voz e o ouvido sentem a antítese. Ex. Custa menos. Corsa ECO (Opel).

4) Repetição exacta das mesmas palavras. Ex. Sempre que sentir falta de um banco, fale com o Banco que o convida sempre a sentar (BCP).

Para Grunig a posição e o agrupamento das palavras oferece as seguintes possibilidades.

1) Antónimos no final ou no início do agrupamento. Ex. Longe dos olhos /perto do coração (Chivas).

2) Posições estruturais comparáveis, no início, no final ou noutros locais da frases. Ex. Quando compramos um pequeno Kaly, compramos um grande televisor.

3) Pluralidade de antónimos e estruturas equilibradas. É que, o reforço da oposição entre os antónimos pode conseguir‑se pela repetição do par de antónimos considerado:

a) Seja pela ordem por que aparecem a primeira vez: Ex. Pequena cilindrada com grandes capacidades, este pequeno carro tem um grande futuro.

b) Seja de forma mais subtil pela permuta de lugar dos antónimos: Ex. O mini maxi ou o maxi mini (Moulinex).

4) Um antónimo na dependência do outro. Trata‑se de um caso particular de relação antinómica que nasce da dependência sintáctica de dois elementos de um primeiro. Ex. A casa grande do vizinho.

Aqui encontramos «grande» e «do vizinho» dependendo de casa:

grande -‑‑‑> casa <‑—- do vizinho.

Tomemos dois antónimos, p. ex. doce # violento. Para instaurar uma dependência conflituosa entre eles basta transformar um em substantivo:

a violenta doçura ou a doce violência

|                                  |

violenta ‑–> doçura doce ‑‑‑> violência

A dependência permite aos contrários coexistirem no seio de um grupo sintáctico.

Deste modo se compreende a sedução e a força que exerceu o slogan político seguinte, em 1981, na campanha de E Mitterrand, criado por J. Séguela: A força tranquila!

5) Antónimos e escalas linguísticas, sob a forma sintáctica seguinte, quando estamos perante antónimos:

O mais A1 dos A2 Nome ou O mais A1 dos Nome A2, onde o nome indica um substantivo qualquer.

Exs. O maior dos pequenos almoços (Corn Flakes). O mais ligeiro dos pesados.

A compreensão destas mensagens apela à existência de escalas como esta

< – —– pequeno —–‑ [ norma ] —–‑ grande ‑—- + >

ou, ainda, de escalas desenvolvidas sob a forma seguinte:

< – ‑—- pequeno ‑— x‑ | ‑—– | ‑ x —-‑ grande —– + >

o maior dos                                  o mais

pequenos                              pequeno dos

grandes.

4. 1. A antítese numa carta de Vieira, paradigmática do seu emprego

Pretendemos, com a observação da carta número 16, destacar a forma estruturante da antítese na mesma.

a) Como pano de fundo encontram‑se as oposições estruturantes do texto:

aqui ou cá ‑ aí;

‑ agora ‑ antes;

esta (vinda do Brasil) ‑ outra.

b) Num segundo plano, poder‑se‑iam situar oposições ao nível dos lexemas, tais como:

Deus ‑ homens;

‑ El‑rei ‑ eu;

decretos ‑ disposições;

‑ divinos ‑humanas;

‑ primeira (vez) ‑ segunda;

‑ último (quartel da vida) ‑ toda;

‑ passado ‑ futuro;

‑ vida ‑ eternidade;

‑ arrependimento ‑ castigo;

‑ tirar ‑pôr;

‑ condenar ‑ livrar;

‑ primeiro ‑ segundo;

‑ não ‑ sim;

‑ inferno ‑ céu;

padec(er)imento ‑ felicidade;

‑ sem ‑ com;

‑ nós ‑ Deus;

‑ ele ‑ nós;

‑ mal ‑bem;

hoje ‑ outro tempo;

‑ vós ‑ eu;

‑ pardo ‑ preto;

‑ manhã ‑ noite;

‑ meus ‑ seus;

‑ estes ‑ outros;

‑ um ‑ outro;

‑ salvação ‑ loucura.

3) Por fim, encontramos oposições baseadas em expressões mais ou menos longas, mas todas portadores de ideias que de uma forma ou de outra se opõem:

‑ a primeira vez vinha contra a vontade de El‑rei; desta segunda vim até contra a minha

tanto caso faz de quem tão pouco vale

‑ tanto ama a quem tanto mal lho merece

‑ seja o futuro [correcto] emenda do passado [incorrecto].

‑ [seja] o que há‑de ser satisfação do que foi

‑ sobre tantos outros pesares, ou hão‑de ter na vida o do arrependimento ou na eternidade o do castigo

‑ ditoso quem, tirando totalmente os olhos deste mundo, os puser naquele sumo e infinito bem

‑ não é o temor do inferno o que me há‑de levar ao céu

‑ estas as novas que vos posso dar de mim, esperando me possais mandar as mesmas desse [lugar] aonde estais

todas [as cousas do mundo] acabam, nenhuma tem firmeza

Nesta carta, de pouco mais de duas páginas, na edição consultada, foram registadas quarenta antíteses.

Para concluir

É a Rousseau que devemos, modernamente, esta abundância de antíteses num dado texto, particularmente na sua obra, Lettres de Ia Montagne. Interessante se torna notar que o tema desses textos do romântico suíço são de natureza idêntica ao da carta de Vieira. Trata‑se, em ambos, de uma questão pessoal questionando uma instituição: é a defesa do próprio, uma pessoa singular, perante uma instituição, respectivamente o tribunal e a realeza.

Se tivermos, ainda, presente que a leitura desse texto de Rousseau é aconselhado frequentemente na formação de jornalistas, tornar‑se‑ão mais claros quer o papel inovador quer o lugar de destaque desempenhados, entre nós, pela epistolografia do P. António Vieira na evolução dessa terceira retórica, a comunicativo‑funcional.

Texto da carta nº 16

«Ao Padre Francisco de Morais

Do Maranhão, a 6‑V‑1653

Enfim, amigo, pôde mais Deus que os homens, e prevaleceram todos os decretos divinos a todas as traças e disposições humanas. A primeira vez vinha contra a vontade de El‑rei; desta segunda vim até contra a minha, para que nesta obra não houvesse vontade mais que a de Deus. Seja ele bendito, que tanto caso faz de quem tão pouco vale, e, tanto ama a quem tanto mal lho merece. Ajudai‑me, amigo, a lhe dar infinitas graças, e a pedir a sua divina bondade ma dê [sic], para que ao menos neste último quartel da vida lhe não seja ingrato, como fui tanto em toda. Ah! quem pudera desfazer o passado, e tornar atrás o tempo e alcançar o impossível, que o que foi não houvera sido! Mas já que isto não pode ser, Deus meu, ao menos seja o futuro emenda do passado, e o que há‑de ser emenda do que foi. Estes são, amigo, hoje todos os meus cuidados, sem haver em mim outro gosto mais que chorar o que tive, e conhecer quão falsamente se dá este nome aos que, sobre tantos outros pesares, ou hão‑de ter na vida o do arrependimento ou na eternidade o do castigo. Ditoso quem por se condenar ao primeiro se livrar para sempre do segundo; e mais ditoso quem, tirando totalmente os olhos deste mundo, os puser só naquele sumo e infinito bem, que por sua formosura e bondade, ainda que não tivera justiça, devera ser amado.

Amigo, não é o temor do inferno o que me há‑de levar ao céu: o amor de quem lá se deixa ver, sim. Oh! que bem empregados mares, e que bem padecidos maranhões, se por eles se chegar com mais segurança a tanta felicidade! Só um defeito acho nesta minha, que é não a poder repartir vonvosco [sic]; mas já que vivemos sem nós, vivamos com Deus, pois está em toda a parte; vejamo‑nos nele e ouçamo‑lo a ele, que melhor será que ouvirmo‑nos.

Se eu ouvira suas inspirações, já não fora tão grande pecador; mas, se o menos mal é parte do bem, alguma consolação posso ter hoje, que no outro tempo me faltava. E, para que vós também a tenhais, sabei, amigo, que a melhor vida é esta. Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pardo que preto; trabalho de pela manhã até a noite; gasto parte dela a me encomendar a Deus; não trato com mínima criatura; não saio fora senão a remédio de alguma alma; choro meus pecados; faço que outros chorem os seus, e o tempo que sobeja destas ocupações levam‑no os livros da madre Teresa e outros de semelhante leitura.

Esta é a minha vida, e estas as novas que vos posso dar de mim, esperando daquele Senhor que está em todo o lugar, e na sua graça que não depende de lugares, me possais mandar as mesmas desse aonde estais. Amemos a Deus, amigo, e para o amarmos só a ele conheceremos que pouco merecem nosso coração todas as cousas do mundo. Todas acabam nenhuma tem firmeza; nesta vida há morte, na outra inferno; e ainda é pior que um e outro o esquecimento de ambos.

Ah! amigo, quem pudera trasladar‑vos aqui o coração, para que lêsseis nele as mais puras e as mais importantes verdades, não só escritas ou impressas, senão gravadas! Salvação! amigo, salvação! que tudo o mais é loucura. Livre‑vos Deus de todas e de vós mesmo, e vos una muito consigo, e vos guarde como desejo e continuamente lhe peço. Amen, Maranhão, 6 de Maio de 1653. Vosso amigo da alma.

(Pe. António Vieira, op. cit., Vol. I, pp. 149‑152)

José Esteves Rei (Universidade da Trás‑os‑Montes e Alto Douro), texto publicado nas Actas do Terceiro Centenário da Morte do Padre António Vieira – Congresso Internacional, Braga, Universidade Católica Portuguesa, 1999, pp. 1635-1646.



[1] Sobre o tema, veja‑se Andrée Crabbé Rocha, A Epistolografia em Portugal, Coimbra, Livraria Almedina, 1965, p. 167.

[2] P.e António Vieira, Obras Escolhidas. Prefácio e Notas de António Sérgio e Hernâni Cidade, Vol. 11, Cartas (I e 11), Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1951.

[3] A. Cardoso Borges de Figueiredo, Logares Selectos dos Clássicos Portuguezes nos Principais Géneros de Discursos em Prosa, para Usos das Escolas, Coimbra, Livraria de J. Augusto Orcel, 1865, 8ª ed..

[4] Francisco Rodrigues Lobo foi, entre nós, o primeiro a realizar um esforço de teorização do género epistolar, na sua obra Corte na Aldeia (Lisboa, Livraria Sã da Costa, Lisboa, 1972, 3.’ ed. ‑ 1ª de 1945 – pp. 51 e 30‑31)

[5] Ibid., p. 52.

[6] Ibid.

[7] Ibid., p. 53.

[8] P.e António Vieira, op. cit., Vol. II, Carta nº 75, p. 156.

[9] Num outro momento, demos já notícia da inovação comunicativa, em termos empresariais, verificada nas dezenas de Regulamentos em que assentava o funcionamento complexo dessa grande empresa que foi a Casa da índia (Cf. J. Esteves Rei, «A comunicação organizacional e a retórica», texto apresentado no XX Encontro da Sociedade Brasileira de Ciências da Comunicação, Santos, 27 de Agosto a 7 de Setembro de 1997).

De igual modo, já destacámos, num outro local, como a Companhia de Jesus revelou uma das primeiras manifestações da comunicação organizacional (Cf. Revista da Universidade Fernando Pessoa, Porto, Edições UFP, nº 1, Junho de 1997, pp. 99‑113).

[10] As suas cartas, como as de Vieira, verdadeiras manifestações de uma retórica comunicativo‑funcional a impor‑se nos tempos actuais, podem encontrar‑se em Amadeu Torres, Noese e Crise na Epistolografia Goisiana. I ‑ As Cartas Latinas de Damião de Góis. Introdução Texto Crítico e Versão. II Damião de Góis na Mundividência do Renascimento. Análise Ideológica, Estético‑Linguística. Apêndice Diplomático. Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, 1982.

[11] Francisco José Freire, 0 Secretário Português, Lisboa, na Oficina Domingos Gonçalves, 1746.

[12] 12 Ibid. p. 1. A ligação da epistolografia à retórica havia sido destacada já pela Idade Média, ao decompor a retórica em várias artes, sendo uma delas a ars dictaminis, ou seja, a arte da epistolografia, ao lado da ars poetriae, ou a versificação, e da ars predicandi, ou a da pregação (cr. B. M. Garavelli, Manual de Retórica, Madrid, Ediciones Cátedra, 1991, p. 50).

[13] Eça de Queirós, Correspondência Consular, Lisboa, Edições Cosmos, 1994.

[14] Jules Verest, Manuel de Littérature. Principes ‑ Faits Généraux ‑ Lois, Bruxelles, Descléc, De Brouwer, Bruges, 1939, 1 Se ed., p. 304.

Relativamente ao estudo da antítese nesta retórica, consultar‑se‑á validamente a bibliografia seguinte: António Albalat, A Formação do Estilo pela Assimilação dos Autores, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950 6.a ed., pp. 219‑317; Gustav Lanson, Conseils sur l’Art d’Écrire, Paris, Hachette, 1916, p. 212; José Gonçalves Lage, Elementos de Oratória, Coimbra, Livraria Almeida Cabral, 1883, pp. 155‑158.

[15] Ibid., p. 62.

[16] Gustav Lanson, Conseils sur l’Art d’Écrire, Paris, Hachette, 1916, p. 212.

[17] Blanche Grunig, Les Mots de la Publicité, Paris, Presses du CNRS, 1990, pp. 39‑58.

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