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Sermão de Quarta-feira de Cinzas

29/07/2010

(em 1672)

Jó 10:9 – “Peço-te que te lembres de que, como barro, me formaste
e de que ao pó me farás tornar.”

“Duas coisas prega, hoje, a Igreja a todos os mortais: ambas grandes, ambas tristes, ambas tenebrosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura: mas a futura vêem-na os olhos; a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são essas? Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos: o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. (…)

De sorte que para eu crer que hei de ser pó não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga, e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente. Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto já é hoje pó? A Igreja diz-me e supõe que sou homem; logo, não sou pó. O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional! O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente? O pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo? O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional? Enfim, se me concedem que sou homem, como me pregam que sou pó? (…) Ora vede. (…)

Apareceu Deus a Moisés no deserto de Mídia: manda-o que leve a nova da liberdade ao povo cativo; e perguntando Moisés quem havia de dizer que o mandava, para que lhe dessem crédito, respondeu Deus e definiu-se: “Eu sou o que sou.” E que nome e que distinção é esta? Também Moisés é o que é, também Faraó é o que é. Pois se este nome e esta definição toca a todos e a tudo, como a toma Deus só por sua? (…) Sabeis por que só Deus é o que é? Porque só Deus é o que foi, e o que há de ser. Deus é Deus, e foi Deus e há de ser Deus: e só quem é o que foi, e o que há de ser, é o que é. De maneira que quem é o que foi e o que há de ser é o que é: e este é só Deus. Quem não é o que foi, e o que há de ser, não é o que é: é o que foi e o que há de ser; e esses somos nós. Olhemos para trás: que é que fomos? Pó. Olhemos para diante: que é o que havemos de ser? Pó. Fomos pó e havemos de ser pó? Pois isso é o que somos: pó.

Quem foi pó e há de ser pó seja o que quiser, e quanto quiser: é pó.

(VIEIRA, Antonio. Sermões. SP : Hedra, 2000. ps. 55-58)

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