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Infância e História (síntese)

02/10/2010

Nem sempre o conceito de infância existiu do modo como o conhecemos hoje. Há um debate teórico que afirma que ela – a Infância – é uma construção histórica que remete ao período da modernidade (séc. XVII, caracterizado pela: crise do feudalismo, surgimento da burguesia como classe dominante, início do capitalismo em suas formas primitivas de acumulação de capital e adoção da razão enquanto princípio explicativo da realidade social, com predomínio do pensamento filosófico do racionalismo).

Podemos compreender a construção histórica do conceito de Infância por, pelo menos, dois eixos de investigação: (a) o “vivido” (que representa a realidade social, as práticas sociais de convivência) e (b) o “dito” (conjunto de idéias, formulações, especulações e representações a respeito da Infância). Eixos de investigação que devem ser tratados de modo complementar.

Um dos principais estudos que procurou compreender a Infância enquanto um fenômeno de natureza histórico-social foi o realizado . que inaugurou o eixo de investigação do “vivido”. Ariès baseou sua investigação sobre a infância, principalmente, em fontes iconográficas como: obras de arte, fotografias, certidões de nascimento, epigrafes de túmulos, dentre outras. Seu estudo representa uma tentativa de demarcar certas características históricas do conceito e é o primeiro a relativizar o tom universalizante que acompanha o conceito moderno. Sua principal conclusão é de que, até o século XIII, a infância não era retratada ou representada pelo adulto. Afirma que isso não se devia à incompetência ou inabilidade dos artistas da época – que procuravam retratar fenômenos e realidades bastante complexas –, mas sim pelo fato de que, simplesmente, as crianças não eram objeto de preocupação ou não gozavam de reconhecimento no período. Segundo seu estudo foi apenas no final do século XVII (1600) e início do XVIII (1700) que se começou a perceber nas práticas sociais e nas relações interpessoais aquilo que denominou de “Sentimento da Infância”, o que não significa necessariamente afeição pelas crianças, mas sim corresponde à consciência da particularidade infantil, aquela particularidade que distingue a criança dos adultos.

O intervalo de tempo que separa esse período em que as crianças não eram retratadas daquele no qual passaram a ser é de, aproximadamente, 500anos. O salto de um estado de indiferença para com as crianças para outro de reconhecimento de sua particularidade não foi gratuito, nem do dia para noite. Representou um processo lento e progressivo que implicou profundas transformações sócio-culturais. Várias “imagens” de crianças foram sendo construídas até chegar naquela que conhecemos hoje.

As diferentes “imagens” da criança e a emergência/desenvolvimento do sentimento moderno

1. Até o século XIII: a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. Não havia lugar para infância nesse mundo. Qualquer tentativa de representação infantil estava caracterizada pela recusa da morfologia infantil, o que é encontrado na maioria das civilizações arcaicas. Seja nas artes plásticas seja nas pinturas não existem crianças caracterizadas por uma expressão particular, e sim homens de tamanho reduzido (tudo indica que a representação realista de criança, sua graça e redondeza de formas tenham sido próprias da arte grega = o pequeno Eros, que desapareceu junto com outros temas helenístico com o domínio dos Romanos, que retomou a recusa dos traços específicos da infância). Pode-se afirmar que na Idade Média a criança não estava ausente, mas nunca era o modelo de um retrato de uma criança real, tal como ela aparecia num determinado momento de sua vida;

2. Após o século XIII: surgem alguns tipos de crianças um pouco mais próximos do sentimento moderno. Aparece o ANJO-ADOLESCENTE, representado sob a aparência de um rapaz muito jovem, um jovem adolescente, cuja idade era a das crianças mais ou menos grandes. Já não é o adulto em miniatura, pois retratado por traços redondos e graciosos; porém longe de representar a infância que conhecemos;

3. O segundo tipo: modelo ancestral de todas as crianças pequenas na história da arte: o menino Jesus e/ou Nossa Senhora menina, ou a INFÂNCIA SAGRADA. Aqui a infância aparece ligada aos mistérios da maternidade, a uma representação mais sentimental e realista, com um acento de ternura e ingenuidade. Essa “imagem” surge no século XIV e se amplia durante os outros séculos;

4. Após século XIV aparece o terceiro tipo: a CRIANÇA NUA. O menino Jesus nunca era representado despido. Na maioria dos casos aparecia castamente enrolado em cueiros. Foi a alegoria da morte e da alma, representada na criança nua, que introduziu no mundo das formas a infância nua (Exemplos: arte medieval francesa a alma era representada por uma criancinha nua; um moribundo exala uma criança pela boca, numa representação simbólica da partida da alma

Esses traços da infância lentamente se estenderam além da iconografia religiosa. Com o tempo tornaram-se mais próximas a cenas da vida cotidiana. Essa iconografia coincidiu com um florescimento de histórias de crianças nas lendas e contos e pode ser acompanhada na pintura, na tapeçaria e na escultura.

A partir do século XV e XVI a criança aparece destacada na iconografia leiga. Não era ainda a representação da criança sozinha.  As crianças começaram a tornar-se uma personagem mais freqüente por cenas anedóticas (engraçadas) e pitorescas (graciosas), que substituíram representações mais estáticas (p.55). Cenas que não consagravam à descrição exclusiva da infância, mas muitas vezes tinham nas crianças suas protagonistas principais ou secundárias. Isso implica, pelo menos, duas questões: (a) na vida cotidiana as crianças estavam misturadas com os adultos e (b) a idéia de que os pintores gostavam de representar a criança por sua graça e seu pitoresco = infância “engraçadinha”;

5. Ao longo do século XV e XVI surgem dois novos tipos de representação da infância: o RETRATO e o PUTTO. O primeiro, representa o retrato da criança morta, o que marcou um momento muito importante na história dos sentimentos com relação às crianças, pois prova que a criança não era mais tão geralmente considerada uma perda inevitável. Começa haver aí um sentimento e desejo de fixar traços de uma criança, para conservar sua lembrança. Até então o que predominava era um sentimento de indiferença com relação às crianças, pois muitas delas mal entravam na vida e já se iam; um ser demasiado frágil que alimentou, durante muitos anos, a prática de se fazer várias crianças para conservar apenas algumas. O surgimento do retrato da criança morta é uma prova de que começou a desaparecer a idéia de “desperdício necessário” (muito comum na época) e, consequentemente, um sentimento de piedade com relação à fragilidade infantil e certa preocupação com práticas de higiene e cuidados para com a criança. A imagem da criança morta era encontrada nas efígies funerárias e, no início, ainda não representavam as crianças sozinhas (p.58 e 59). No final do século XVI há registro de crianças isoladas e, desde então, criou-se o hábito de conservar, através da arte do pintor, o aspecto fugaz da infância. No início do século XVII os retratos da criança isolada tornaram-se mais numerosos e sua característica principal era representar a criança por ela mesma, a grande novidade do século XVII; a criança passou a ser um dos modelos favoritos dos pintores (p.61);

6. O putto: representação de criança desconhecida na Idade Média, a criancinha nua. Surge no final do século XVI e representou a revitalização do Eros grego. Tornou-se um importante motivo decorativo, impactou o tema da infância religiosa e gozou de uma penetração na cultura tão significativa que, num dado momento, era impossível representar a infância sem evocar-lhe a nudez da criança. Porém, assim como seus sucessores, o putto nunca foi uma criança real e histórica. A nudez do putto (nudez mitológica) passou a ser aplicado no retrato da criança o que representou uma grande transformação, pois foi ai que a descoberta da infância se desenvolveu de modo mais consistente e decisivo, tanto que a nudez da criança pequena se tornou uma convenção do gênero.

Pode-se perceber que o século XVII teve uma importância primária e significativa à descoberta da infância, pois foi nele que: (a) os retratos de crianças sozinhas se tornaram numerosos e comuns, (b) que os retratos de famílias, muito mais antigos, tenderam a se organizar em torno da criança que passou a ocupar o centro da composição familiar (concentração em torno da criança), (c) que as crianças ocuparam um lugar privilegiado com cenas características e (d) se consolida o gosto pela nudez infantil, que se tornou uma convenção rigorosa nos retratos de crianças. Afirma o autor: “a descoberta da infância começou sem dúvida no século XIII, e sua evolução pode ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Mas os sinais de seu desenvolvimento tornaram-se particularmente numerosos e significativos a partir do fim do século XVI e durante o século XVII” (p.65).

Bibliografia: A História da Infância, Phillipe Ariés

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