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O pensamento pedagógico de LOCKE

02/10/2010

A Moral Liberal Como Processo Educativo no Pensamento Político de John Locke*

INTRODUÇÃO

Apresentaremos a seguir o texto aqui desenvolvido que  tem como título “A moral liberal como um processo  educativo no pensamento político de John Locke’’ que discorre sobre alguns dos problemas que o tema apresenta quando discutimos o pensamento moderno, assim como os debates sobre como esse projeto se consolidou ao longo dos três séculos que sucederam as propostas de Locke presentes em, ”Alguns Pensamentos Sobre a Educação”, publicado em 1695. Este texto está dividido em três partes, que são: 1) A contextualização histórica do liberalismo no século dezessete. Onde discutimos alguns aspectos da moral liberal, como também, sua relevância no pensamento lockeano. 2) O fundamento da moral liberal no princípio da propriedade. Onde buscamos tratar do seu princípio de propriedade. 3) Uma proposta liberal para a educação do homem moderno, alguns pensamentos sobre a educação. “Some thoughts concerning education”. Em que apresentamos algumas das propostas de Locke para a educação do homem moderno.

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO LIBERALISMO CLÁSSICO DO SÉCULO XVII.

No contexto vivido por Locke durante o século XVll, com o surgimento do seu “segundo tratado sobre o governo civil’’, logo em seguida ao primeiro tratado, a situação política na Inglaterra era de transição. Com os acontecimentos da Revolução contra Jaime II em 1688, sobe ao trono Guilherme de Orange, dando início a um novo período monárquico na Inglaterra.  À luz dos acontecimentos, Locke retorna em 1689 para a Inglaterra e são publicadas entre 1689 e 1690 os “Dois tratados sobre o governo Civil’’, além da edição do “Ensaio sobre o Entendimento Humano”.

O surgimento dos tratados no ano de 1690, não significa precisão quanto ao período em que foram escritos, pois as conclusões mais fortes apresentadas pelos pesquisadores das obras de Locke indicam, como sendo mais provável, que os dois tratados tenham sido escritos durante o exílio na Holanda, para onde fora em 1683, após a morte do Conde de Shaftesbury. Uma das questões que levam a esta conclusão é o fato de que o primeiro tratado sobre o governo civil é quase totalmente uma obra dedicada a combater o livro escrito por Robert Filmer, “Patriarcha, or the natural power of kings’’ (1680). Entre os argumentos colocados está aquele em que Locke teria tido acesso à obra escrita por Filmer durante o exílio e que a resposta escrita por Locke teria sido produzida durante o período em que esteve exilado na Holanda.

Dentre as várias informações existentes a respeito de Locke, uma é bastante forte e coincidente entre os vários autores, a que afirma ter sido o teórico inglês, alguém muito cuidadoso com as suas idéias, expondo-as somente entre os amigos mais próximos. Uma outra questão importante a se considerar, é que com a Revolução de 1688 (ou a queda do Governo, já que o processo revolucionário na Inglaterra permanece quase o século dezessete todo ) e a chegada ao poder de Guilherme de Orange , figura politicamente próxima das idéias de Locke, surgiu a possibilidade da publicação de suas obras. Há ainda um outro argumento bastante utilizado, que é aquele em que, por se tratar de alguém tão criterioso, estas obras foram escritas em muito mais tempo do que o pequeno período de apenas alguns meses, pois Locke havia retornado à Inglaterra em fevereiro de 1689 e a publicação dos tratados, foi feita em 1690 e durante o ano de 1689 ele esteve preparando a obra “O Ensaio Sobre o Entendimento Humano”, que foi editada em 1690, juntamente com os “Dois Tratados sobre o Governo civil”, o que inviabilizaria, portanto, a produção dos tratados no ano de 1689-1690.

Em seu primeiro tratado sobre o governo, Locke debate as teses de Robert Filmer, que justificavam o poder absoluto dos reis. Filmer utilizava-se dos argumentos contidos nas sagradas escrituras, onde segundo ele, o direito de poder paterno está justificado no Princípio da Herança de paternidade deixada por Deus para Adão. Ficava desta forma definida a relação política na sociedade, ou seja, o patriarca, enquanto herdeiro de Adão, constituía-se no grande governante terreno. Fazia-se a relação direta entre o céu e a terra, princípio teológico. Estas teses serão questionadas por Locke durante todo o seu primeiro tratado, assim como esboçará, também, o início das idéias sobre o direito de propriedade.

A grande questão presente em Locke no segundo tratado sobre o governo civil era que quando estabelecia a sua forma de organização do poder, regulamentação da propriedade privada, ou a sua forma de visão da política, apresentava uma oposição direta entre a concepção de Estado e de poder, defendidas pelo grande teórico do séc.XVII, Thomas Hobbes (1588-1679). Enquanto para Hobbes, o Estado se apresentava como senhor absoluto, ficando para os cidadãos ou súditos a obediência , sem questionamentos, pois o Estado funcionava como uma ordem absoluta e controladora e que tinha por objetivo tirar os homens da guerra de todos contra todos; em Locke as relações se davam dentro de um mundo bem natural, O estado de natureza não é exatamente uma guerra, mas uma visão de plena liberdade, valorizando-se, portanto, os indivíduos, sendo estes os criadores do Estado, desta forma serão governados por um monarca, mas participarão também do governo, o que viemos a conhecer por parlamento. Em Hobbes, embora os indivíduos criem o Estado, estes abrem mãos do poder para que ele fique centralizado no monarca, partia da referência oposta, ou seja, o Estado Absoluto é a figura máxima e inquestionável, embora também partisse do mundo natural, cabendo, no entanto, aos integrantes da sociedade, obediência. Existindo, assim, uma relação de poder supremo e absoluto, perfeito e indissolúvel, fruto de um acordo em que aos súditos obedecer é fundamental, pois caso contrário, o Estado perderia a sua real condição de soberania absoluta sobre aqueles que integravam a sociedade. Os senhores têm, nesta perspectiva, direitos absolutos sobre a vida dos seus comandados.

A perspectiva lockeana no, “segundo tratado sobre o governo civil’’, é, portanto, a de uma relação estabelecida no mundo natural, embora admita o poder dos reis ou a Monarquia. Não se coloca enquanto um absolutista por considerar a possibilidade de mudanças, o direito de resistências dos cidadãos, justificado, é claro, quando não há uma correspondência entre o desejo dos indivíduos integrantes da sociedade e o governo ou Estado. Em outras palavras, quando o Estado não cumpre o seu papel fundamental, que é o de proteger a vida e a propriedade. Hobbes, parte do princípio que os súditos devem sempre obedecer ao Estado, por isso devem agir conforme leis que estão acima do desejo dos próprios indivíduos e a ação dos que exercem o poder será necessariamente  correta.

O estado de natureza em Hobbes é uma questão prejudicial ao homem, porque na medida em que os homens estão relacionados uns com os outros, em uma condição de medo, guerra de todos contra todos, a razão não opera como reguladora. Os homens são, portanto, inimigos uns dos outros e, dentro destas condições naturais, eles não conseguirão criar o equilíbrio necessário para as relações sociais, o que seria desta forma, um estágio infantil da humanidade. Existindo, portanto, a necessidade de um poder regulador e absoluto.

Seguindo, portanto, este método, ponho em primeiro lugar como um princípio conhecido de todos por experiência, não havendo ninguém que o negue, a saber, que os homens são por natureza de tal feitiço que, se não forem coagidos por medo de algum poder comum, vivendo sempre desconfiados uns dos outros, temendo-se reciprocamente: terão decerto o direito de prevenir-se cada qual com as próprias forças, mas terão também necessariamente a vontade para isso.(Hobbes, 1993 p 10)

Enquanto para Locke há uma aposta na razão individual e que os vários componentes da sociedade poderão organizar-se e constituir a ordem social e, por conseqüência também formarão o Estado, o que resulta em otimismo em relação ao homem. Portanto, os seres humanos, enquanto dotados de capacidades racionais, buscarão construir as suas vidas, assim como os seus organismos de regulamentação da sociedade civil e do Estado; já Hobbes parte de um pessimismo, ou seja, o homem é por natureza mal e por isso, terá que ser vigiado por um controlador com a plena distinção de bem e de mal, no caso, o Estado como senhor absoluto. Em Locke a liberdade é um bem fundamental para o crescimento e o amadurecimento humano, em Hobbes, a liberdade do homem em seu estado de natureza é prejudicial, fazendo dele um destruidor da sua vida e dos outros integrantes da sociedade, o Estado absoluto é preservador da vida humana.

“Vemos como todas as cidades, embora em paz com as vizinhas, preservam seus limites como deveres e guarnições militares, e sua população com muralhas, portões e sentinelas. Para que isso, se nada temessem dos vizinhos? Vemos também como nas próprias cidades, onde há leis e penas estabelecidas contra os maus, os cidadãos não andam sem alguma arma para sua defesa, nem vão dormir sem antes trancar as portas contra os concidadãos ou sem fechar portas e gavetas contra os domésticos.” (Hobbes,1993p. 11)

A aposta que Hobbes faz na razão humana pode ser comparada com a relação existente entre os pais e os filhos, por serem as crianças criaturas em formação, terão que obedecer aos pais, e estes terão que criar as regras e os limites para a obediência dos filhos. Da mesma forma é a relação estabelecida entre o Estado e os súditos, assim como os pais cuidarão dos filhos de uma maneira a não lhes prejudicar, também o Estado agirá em relação aos súditos de maneira que sempre permitirá a melhoria destes e o seu crescimento pessoal. Não havendo, portanto, a necessidade por parte dos súditos de mudarem o Estado, pois como surgiu da aceitação tácita dos que integram a sociedade, torna-se algo próximo e bom, sempre que cumprir o seu papel que é o de evitar a guerra de todos contra todos, a sua conduta será sempre correta e boa para os que a ele dedicam obediência e total consentimento.

As próprias paixões d’alma que procedem da natureza animal não são más, as ações delas provenientes às vezes são más quando nocivas ou contra o dever. Se não se der às crianças tudo que pedem, choram e zangam-se, os pais batem; elas recebem da natureza o vezo de assim fazer. Mas não tem culpa nem são más. Homem mau é quase a mesma coisa que menino corpulento, um corpo de homem com alma infantil. Malícia é o mesmo que falha de razão numa idade em que esta costuma vir aos homens por força da natureza, já domada pela disciplina e pelo sofrimento de danos.(Hobbes,1993 p.11)

O surgimento do Estado, segundo Locke, é um ato de liberdade de decisão e princípio de sobrevivência e preservação. As necessidades de cada indivíduo devem, portanto, estar associadas à sua relação com os outros indivíduos, constituindo-se assim, a sociedade civil e política.

E não é sem razão que ele procura e almeja unir-se em sociedade com outro que já se encontram reunidos ou projetam unir-se para a mútua conservação de suas vidas, liberdades e bens, aos quais atribuo o termo genérico de propriedade (Locke, 1998 p.495).

As necessidades dos homens, ao criarem o Estado, estão fundamentadas em um ideal (aqui a palavra ideal está colocada em um sentido genérico e tem apenas o interesse coloquial do texto e não de um debate teórico do idealismo) de manutenção dos que retiram do estado de natureza as suas propriedades, como a manutenção de suas posses, se dará dentro da sociedade política, questão fundamental para o Estado em Locke, defender a vida e a propriedade. Ao agirem a partir da liberdade e da preservação, os homens deverão fundar um Estado calcado nos princípios morais, pois a propriedade é uma atitude moral, assim como o surgimento do Estado é um ato livre e de sobrevivência, o poder que será construído só fará sentido na medida em que refletir os direitos e desejos morais dos indivíduos, se assim não fosse, poderia permanecer no estado de natureza.

A Fundamentação da Moral Liberal no Princípio da Propriedade

O direito à propriedade se apresenta para Locke como condição inerente da existência individual. A primeira questão fundamental dentro desta perspectiva é a própria sobrevivência dos seres humanos, estabelece-se, portanto, uma relação entre subsistência humana e propriedade dos bens disponíveis na natureza. O que será necessário definir é a forma com que os homens devem adquirir os bens disponíveis para os seres humanos no mundo natural. Os bens considerados suficientes para a sobrevivência humana, assim como, as capacidades dos homens de construírem riquezas são perfeitamente aceitáveis por Locke, no entanto, existe uma condição imposta para o acesso por parte dos homens às conquistas de posses que a natureza lhes propicia. O ponto fundamental é que a propriedade dos bens se dê através do trabalho. Os bens compreendidos pelo autor estendem-se por várias coisas presentes na natureza, como a terra, os frutos das árvores, a pesca, entre outras.

Aquele que se alimenta das bolotas colhidas debaixo de um carvalho ou das maçãs apanhadas nas árvores da floresta, com toda certeza delas se apropria para si. Ninguém pode negar que lhe pertença o alimento. Pergunto então; quando passaram a pertencer-lhe? Quando as digeriu? Quando as comeu? Quando as cozinhou? Quando as trouxe para casa? Quando as colheu? E é evidente que, se a colheita, de início, não as fez dele, nada mais poderia tê-lo feito. Este trabalho estabeleceu uma distinção entre o comum e elas; juntou-lhes algo mais do que fez a natureza, a mãe comum de todos, tornando-as assim direito privado dele. (Locke,1998 p.411)

Cria-se, assim, uma necessidade moral para a aquisição dos bens, que é a necessidade do trabalho para a permissão à posse. Surge, desta forma, uma exigência no plano individual, que é a construção da sobrevivência, assim como, a condição de relação dos homens com a natureza ou as coisas do mundo, através da utilização do trabalho humano. O que existe no estado de natureza é comum a todos os homens, tornando-se propriedade de um indivíduo em particular quando este, através do seu trabalho, passou a tomar posse daquilo que foi colocado aos homens em comum por parte da natureza, nas palavras de Locke:

Embora a água que corre na fonte seja de todos, quem poderia duvidar que na bilha está somente a que pertence a quem a recolheu? Pelo trabalho tirou-a das mãos da natureza onde era comum e pertencia igualmente a todos e, de tal forma, dela se apropriou para si mesmo. (Locke, 1998 p.411.)

A persistência na questão do trabalho faz-se presente constantemente em Locke. Através da utilização de vários exemplos, depara-se com a relação entre propriedade e trabalho, os argumentos são construídos sempre em uma direção que é permitida fazer a relação entre uma coisa e outra. E com isso também, parece-nos bastante clara e radical a exigência feita pelo pensador britânico, da justificativa para a propriedade, ou seja, embora haja uma necessidade inerente nos homens com relação à propriedade, esta necessidade se dá no estado de natureza, a justificativa para o acesso aos bens disponíveis na natureza está na presença do trabalho como exigência fundamental.

E mesmo entre nós, a lebre que qualquer um está caçando julga-se daquele que a persegue durante a caçada; visto que, como sendo animal que ainda se considera comum sem ser propriedade de um indivíduo particular, quem quer que empregou tanto trabalho para descobrir e perseguir um animal deste retirou-o, por essa maneira, do estado de natureza em que era comum, e iniciou uma propriedade. (Locke, 1998, p.411.)

A sociedade é constituída pelos indivíduos de modo particular, formando-se assim, um conjunto social, ou ainda, um grupo de indivíduos ou comunidade. Partindo deste ponto de referência, o pensamento de Locke avança em questões importantes para o estabelecimento de regras de convivência, sem as quais, a comunidade correria o risco de desagregação. A propriedade é colocada como um bem essencial para a realização individual e como o número de integrantes aumentaria naturalmente, o estabelecimento de normas para a boa convivência torna-se fundamental, visando-se, sempre, a harmonia da comunidade, assim como, a preservação da propriedade e o respeito com o trabalho dos indivíduos particularmente.

Sendo agora, contudo, a principal matéria da propriedade não os frutos da terra e os animais que sobre ela subsistem, mas a própria terra, como aquilo que abrange e consigo leva tudo o mais, penso ser evidente que ai também a propriedade se adquire como nos outros casos. A extensão de terra que um homem lavra, planta, melhora, cultiva, cujos produtos usa, constitui a sua propriedade. Pelo trabalho, por assim dizer, separa-a do comum. Nem lhe invalidará o direito que qualquer outro terá igual direito a essa extensão de terra, não sendo possível, portanto, aquele apropriar-se ou fecha-la  sem o consentimento de todos os membros da comunidade – todos os homens (Locke, 1998 p.412.)

A existência humana material, conforme as preocupações colocadas por Locke, constitui o ponto mais importante de uma determinada sociedade, e por esta razão ele trabalha com tantos detalhes os problemas referentes aos indivíduos. A organização da sociedade, para Locke, deve portanto, partir dos próprios componentes da comunidade ou dos seus cidadãos. Na medida em que a individualidade é tão importante no seu pensamento político, as colocações referentes ao econômico, embora sejam muito importantes, não são ao nosso ver, o fim fundamental para o indivíduo projetado por Locke, mas faz parte de todo um processo de realização humana. Embora exista a importância de uma boa condição material para cada cidadão na sua vida prática, as preocupações devem também estar presentes em relação ao conjunto da sociedade, pois a harmonia da vida em comunidade é necessária para que a paz seja mantida e que ninguém precise tomar daquilo que não lhe pertence, fazendo-se assim, a justificativa do respeito mutuo entre todos os indivíduos, condição para a sobrevivência da comunidade em geral e em última instância a existência pacífica dos indivíduos particularmente de uma sociedade e isto, para Locke, é fundamental, pois embora parta do indivíduo, ele tem consciência de que é somente a partir de uma sociedade bem organizada que será possível a construção do seu individualismo idealizado. Existe, portanto, para Locke, a fundamentação de uma moral para o indivíduo, a propriedade é um bem e ao mesmo tempo necessária, porém, deve realizar-se no exercício do trabalho.

Existe a necessidade dos indivíduos, como membros de uma comunidade, de se organizarem e este fato acaba levando-os a formarem uma sociedade civil, surgindo assim, a constituição do Estado. Que funcionaria como um regulador das relações existentes na sociedade, no que se estabelece uma questão fundamental para Locke, pois se os indivíduos, em particular, têm uma obrigação moral para construir a própria sobrevivência, estes terão, necessariamente, que viver em um Estado moralmente correto. O que implicará no problema da relação moral entre o Estado e os cidadãos que formam a sociedade.

A questão do poder estará presente para Locke, pois se por um lado os indivíduos que formam a sociedade agem a partir de um princípio moral, esta condição exigirá que o Estado criador de leis, colocadas na condição de reguladoras do tecido social, deverá trabalhar com princípios reguladores morais, que possam ser controlados por parte dos cidadãos. Surge assim, a figura do poder civil e como ele se relaciona com o Estado. Enquanto regulador, o poder civil, que emana dos cidadãos, depara-se com questões tais como a convivência entre poder civil e sociedade civil.

Se observarmos os primeiros escritos de Locke não encontraremos as mesmas preocupações de regulamentação da relação entre Estado e cidadão, pois o que está presente nos escritos aqui mencionados, mostram um Locke quase que hobbesiano. Já dentro do “segundo tratado sobre o governo”, torna-se fundamental a distinção entre o poder do Estado e a liberdade dos indivíduos. E nesse ponto a manifestação política ou ética, apresentada por Locke, torna-se bastante moderna, pois é a manifestação de um Estado independente e laico, ( a originalidade aqui referida é em relação a um Estado que admite uma Monarquia parlamentarista, pois quanto ao Estado moderno laico não podemos esquecer Maquiavel que fazia tais afirmações antes de Locke ) o que faz dele um autor original, para uma proposta política dentro dos princípios das chamadas sociedades liberais modernas.

As considerações feitas por Locke em seu “segundo tratado sobre o governo”, abrangem vários pontos, todos com grande importância. No entanto, o grande elo de ligação se dará, ao nosso ver, dentro de uma fundamentação moral do Estado. Ao considerar a necessidade da passagem do estado de natureza para a sociedade civil, assim como, o estabelecimento de condições para o direito de propriedade e por conseqüência suas preocupações com a formação da sociedade civil, a organização do poder, a regulamentação da vida em sociedade por parte do Estado, apontam para uma necessidade moral que regule o poder, como também, a realização individual de cada membro da sociedade.  No que podemos perceber, mais uma vez, um Locke moderno e teórico da sociedade burguesa que começava a se consolidar enquanto pensamento hegemônico, para tanto, era necessário também educar esse homem moderno que se apresentava e, sendo assim, Locke escreve a sua obra sobre educação que passaremos a analisar em seguida.

Uma proposta liberal para a educação do homem moderno , alguns pensamentos sobre a educação. “some thoughts concerning education “.

Esta obra teve sua origem nas extensas cartas que Locke escreveu enquanto estava vivendo na Holanda e foram endereçadas a seus amigos na Inglaterra, Sr. e Sra. Edward Clarke. Estes haviam solicitado o conselho de Locke sobre como criar o jovem filho do casal. Seriam recomendações sobre a criação e educação do filho para tornar-se um cavalheiro. Houve quatro edições durante a vida de Locke, mas cinco, de fato, uma vez que duas diferentes edições de aspecto semelhante, impressas em 1693. A Quinta foi realmente publicada em 1705, um ano após a morte de Locke. Uma terceira edição veio a público em 1695, uma Quarta em 1699. As cartas originais aumentaram em número, algumas edições foram feitas antes de sua publicação como livro, mudanças foram introduzidas nas edições subseqüentes  às duas de 1693.

Essa obra atraiu a atenção de muitos amigos de Locke, sobretudo daqueles que tinham filhos pequenos. Há algumas referências à educação das meninas no texto, mas o livro foi principalmente escrito para que os pais educassem o filho homem.  A obra trata da criação de um jovem cavalheiro. Há muitos conselhos bem fundamentados sobre a criação de filhos e algumas observações sobre a natureza, motivos, desejos e atividades das crianças. Em seu âmbito mais amplo, trata-se de uma obra que reflete a constante preocupação de Locke com o desenvolvimento do caráter moral. Tem seções sobre a saúde do corpo, mas o bem-estar da pessoa moral foi seu interesse dominante nessa obra. Trata da natureza de um currículo, discorre sobre o valor de viajar para a formação intelectual de um jovem, coloca uma série de sugestões para a aprendizagem de línguas estrangeiras e recomenda que se observe as crianças brincando como forma de estudar-lhes o caráter. Acredita que as crianças nascem com certos traços de caráter, alguns dos quais podem ser alterados, ao passo que outros devem ser trabalhados e seu aperfeiçoamento estimulado.

Havendo sido tomados os cuidados adequados para manter o corpo forte e vigoroso, de tal forma que possa ser capaz de obedecer e executar as ordens da mente, a tarefa seguinte e mais importante é dispor a mente corretamente, de modo que em todas as ocasiões ela seja adequada à dignidade e excelência de uma criatura racional. (Locke, 2000, p165).

Pode-se afirmar que a noção de educação foi central no pensamento de Locke, tanto no que se refere ao individuo, assim como sobre a sociedade enquanto estrutura fundamental da vida organizada. A transmissão dos valores de uma sociedade alicerça-se na criação e educação das crianças. O processo de aculturação tem lugar no seio da família. A orientação que o preceptor e os pais são enfaticamente recomendados a dar à criança em processo de crescimento com o objetivo de ajudá-la a adquirir conhecimentos, equipara-se às sugestões de uma psicologia genética presente no “ensaio sobre o entendimento humano’’ A orientação paterna desempenha também um papel importante em “Dois tratados sobre o governo’’ “Alguns pensamentos sobre a educação’’ faz parte de um corpo de textos educacionais do século XVII, mas Locke sistematizou e tornou mais legível o que tinha sido tentado em estudos anteriores. Neste texto o desenvolvimento proposto de uma educação para a sociedade nova que ele acreditava fica claro quando observamos o autor.

Se o que eu disse no início deste discurso for verdadeiro, como não duvido que seja, a saber: que a diferença encontrada nas maneiras e habilidades dos homens é devida mais a sua educação do que a qualquer outra coisa, temos razões para concluir que há de ser tomado muito cuidado em formar as mentes das crianças e dar-lhes cedo aquele tempero que influenciará toda a sua vida posterior. Pois que quando eles fizerem o bem ou o mal, o mérito ou a culpa será lá assentada; e quando qualquer coisa for feita impropriamente, aplicar-se-lhes-à o dito comum de que tal é devido a sua criação. (Locke, 2000, p. 165).

Enquanto os autores do século dezoito apresentam as suas propostas de educação do burguês como novidade para a época, Locke apresentava já no século dezessete, ao que nos parece, questões importantes no que se refere à formação do cidadão. Sendo assim, podemos afirmar que, ao forjar uma idéia de sociedade no século dezessete, Locke mostra ainda uma forma para que a sociedade possa assimilar o que foi por ele proposto, que é a educação do homem, através de um projeto moral com pressupostos do liberalismo por ele defendido.

Assim como a fortaleza do corpo repousa principalmente sobre o ser capaz de suportar as privações, o mesmo ocorre com a da mente. O grande princípio e fundamento de toda virtude e valor está colocado nisto: que um homem seja capaz de negar a si mesmo seus próprios desejos, contrariar suas próprias inclinações, e seguir puramente o que a razão indica como melhor, embora o apetite incline-se em outra direção. (Locke, 2000,pp. 165 e 166)

Defesa da razão e ligação do seu pensamento, sua teoria do conhecimento, pensamento político e questões sobre a religião, estão ligados como um todo coerente em seu pensamento ou teoria da educação.

Fonte:

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