h1

QI e Raça

02/10/2010

http://skepdic.com/brazil/qiraca.html


Robert Todd Carroll

QI e raça

“As três grandes estratégias para se obscurecer uma questão são introduzir irrelevâncias, acender preconceitos e estimular o ridículo….” —Bergen Evans, The Natural History of Nonsense [História Natural do Nonsense]

“Se você faz afirmações a respeito de diferenças raciais baseando-se em dados inexistentes –e no momento não existe nenhum que seja legítimo– não passa de um terrorista.” –Jerome Kagan, professor de psicologia da Universidade de Harvard.

“QI” é a sigla de “quociente de inteligência”. Presume-se que o QI de uma pessoa seja uma medida de sua inteligência: quanto maior o QI, maior a inteligência. Isso no entanto é impreciso, já que assume que haja apenas um tipo de inteligência. A maioria das pessoas reconhece que existam pessoas com fantástica capacidade de memória, algumas com mentes matemáticas, algumas com gênio musical, algumas com perícia mecânica, algumas com bons vocabulários, algumas boas em perceber analogias, algumas com boa capacidade de síntese, algumas boas em unificação, etc. Algumas pessoas se destacam em mais de um desses comportamentos. Seria mais correto falar-se em inteligências humanas do que inteligência. Um teste de QI, portanto, não deve ser considerado uma medida da inteligência de uma pessoa. Um teste de QI é uma medida do QI da pessoa, o que não é o mesmo que suas inteligências.

Os Arthur Jensens e William Schockleys do mundo não encontraram nenhuma correlação entre raça e inteligência. Encontraram correlações entre raça e QI. Sua obra e trabalhos como The Bell Curve [A Curva do Sino], de Herrnstein e Murray, vêm sendo usados para apoiar a idéia de que algumas raças são superiores a outras.

O termo ‘raça’, entretanto, é ainda mais problemático que o termo ‘inteligência.’ Apesar de sermos todos membros da raça humana, poucos negam que existam várias raças ou que hajam óbvias diferenças físicas e culturais entre diferentes grupos étnicos. No entanto, tornou-se uma crença amplamente disseminada que a raça seja geneticamente determinada da mesma forma que, digamos, a cor dos olhos. Possuir um determinado gene, ou grupo de genes, significa que se tenha olhos azuis. Da mesma forma, pensa-se, possuir um gene ou grupo de genes torna uma pessoa caucasiana. No entanto, não existe algo como um gene racial ou conjunto de genes raciais mais do que exista algo como um gene ou conjunto de genes da inteligência. Isso não quer dizer, é claro, que a composição genética de uma pessoa não seja um fator significativo para a inteligência em áreas específicas, ou características físicas associadas a diferentes raças, como a cor da pele. Deveria ser óbvio, entretanto, pela enorme variação de níveis de inteligências entre indivíduos de qualquer raça, que o ambiente é um fator determinante muito mais significativo para características raciais do que para inteligências. Isso parece implicar em que quaisquer diferenças genéticas que existam entre raças se devem mais provavelmente à seleção natural e à seleção sexual. Também parece implicar em que a idéia de uma raça “pura” é um disparate. Mesmo se os fundamentalistas estivessem certos e tivessem havido Adão e Eva originais, nenhuma raça poderia se dizer “pura”. Cada uma evoluiu de acordo com processos naturais, como a seleção natural.

Alguns dados raciais

“Existe uma variação genética de cerca de 15% entre quaisquer dois indivíduos,” segundo a escritora científica Deborah Blum. “Menos que a metade disso, cerca de 6%, é responsável pelas classificações raciais conhecidas…. Uma pessoa branca selecionada aleatoriamente, portanto, pode facilmente estar mais próxima geneticamente de um africano que de outro branco” (Blum).

Joseph Graves, da Universidade Estadual do Arizona em Tempo, biólogo evolucionário negro, observa que a maioria das pessoas comuns e pesquisadores que tentam estabelecer correlações entre diversas capacidades naturais e a cor da pele não são geneticistas.

Essas pessoas não conhecem genética evolucionária. Conversam sobre interessantes questões raciais e biológicas. E como, creio eu, não existem raças reais, fico imaginando o que seriam essas questões. Fico furioso por ter que tomar tempo das minhas pesquisas (sobre a genética do envelhecimento) para discutir sobre algo que não deveria sequer ter de ser discutido (Blum).

C. Loring Brace, antropólogo da Universidade de Michigan, afirma que “raça é uma palavra de quatro letras sem nenhuma fundamentação na realidade biológica” (Blum).

Naturalmente, características físicas como a cor da pele, forma das pálpebras, cor dos olhos, textura dos cabelos, etc., são geneticamente determinadas. É também verdade que a capacidade de um indivíduo para algum tipo específico de inteligência dependa grandemente de fatores genéticos. O que não é verdadeira é a idéia de que raças inteiras de pessoas tenham conjuntos de genes que as tornem um grupo mais inteligente que outras raças. Os genes que afetam o talento musical, o poder de visualizar ou raciocinar de forma abstrata, por exemplo, não são estabelecidos como os mesmos que afetam aquelas características que são associadas com o fato de ser caucasiano, mongolóide ou negróide. Se quiser descobrir por que os asiáticos estão sobre-representados nas universidades da Califórnia, enquanto que os negros ou hispânicos estão sub-representados, você provavelmente procurará em vão por uma resposta na genética. Os que se interessam por essas coisas se sairão melhor se examinarem a estrutura familiar, tradições étnicas e condições sociais.

Correlações espúrias

Não é uma proeza fácil correlacionar inteligência e raça em nome da ciência e ainda fazer o mundo dar atenção a isso. Seria devido aos números, às estatísticas que impressionam algumas pessoas? Provavelmente não. Mesmo as análises numéricas mais sofisticadas que demonstrassem uma correspondência entre o flogisto e o éter não atrairiam atenção atualmente. Então, por que deram ouvidos ao assunto raça/inteligência. Como pode uma pessoa racional levar a sério idéias como Arianos ou pureza racial? Algumas pessoas provavelmente afirmam essas coisas como uma questão de estabelecer o poder. Ser um membro de uma raça pura é uma maneira rápida e simples de se estabelecer a superioridade de alguém. Tornar-se um membro do grupo é fácil. Nasce-se nele. Fazer parte da raça certa dá à pessoa um direito à superioridade e justifica as desigualdades. Também justifica o racismo, pois se pessoas inferiores estão tendo sucesso, devem estar usurpando a justa herança das pessoas verdadeiramente superiores. Também justifica a crença em coisas a respeito de uma pessoa que não têm nenhuma validade objetiva. Uma pessoa que é realmente inferior pode justificar o fato de se achar superior por ser um membro de uma raça. Pode desculpar quaisquer falhas ou inadequações e atribuí-las à vantagem injusta que é dada aos que considera inferiores. Pode até mesmo enganar-se, acreditando que sua pele parda é branca e que de alguma forma merece compartilhar das realizações de qualquer um de sua raça.

No entanto, mesmo se existisse algo como uma raça pura, este fato não justificaria que ela fosse considerada superior a qualquer outra. Seria possível até mesmo defender a inferioridade dessa raça. A natureza claramente favorece a variação. As chances de sobrevivência sob condições variáveis e em constante mudança aumentam quanto mais a espécie é diversificada. Similaridade excessiva poderia significar desastre racial, extinção, ao passo que diversificação poderia significar a sobrevivência de alguns dos membros da espécie caso um desastre se abatesse. Da mesma forma, muitas variedades de inteligências, assim como indivíduos com graus variáveis dessas inteligências numa espécie, poderia muito bem ser um sinal de superioridade, ao menos em termos de sobrevivência potencial da raça.

Serão sem valor os estudos que mostram que negros ou asiáticos obtêm resultados diferentes dos americanos assim chamados “brancos” nos testes padronizados de QI? Isto é, serão inúteis os trabalhos de pessoas como Herrnstein e Murray? Não. São dados valiosos, mas também explosivos devido ao nosso histórico político racista. Dados como esses serão inevitavelmente explorados por defensores da supremacia branca, distorcidos para atingir seus objetivos políticos e usados, não para melhorar as relações raciais nos EUA, mas para incentivar mais conflitos raciais. Esses dados consistem principalmente em correlações e, embora isso não convença cientistas empíricos ortodoxos de nada, as correlações são o coração e a alma do trabalho do pesquisador racista. O furor que The Bell Curve causou morreu rapidamente porque surgiu um acontecimento seguinte que usurpou seu valor político e de entretenimento: o julgamento de O.J. Simpson. Na verdade, Herrnstein e Murray, capítulo após capítulo, clamam por reformas sociais para melhorar a situação dos negros nos EUA. Podem ser reivindicações fingidas mas, de qualquer forma, são incoerentes com a idéia de que as condições sociais dos negros nos EUA se deva a fatores genéticos. Se foram os genes que resultaram na sub-raça negra de jovens selvagens que matam-se uns aos outros diariamente em quase toda cidade nos EUA, não há fundamento em reivindicar programas educacionais e vocacionais. Não faz sentido clamar por uma mudança de enfoque para negros e negras em suas famílias, mesmo se o defensor da supremacia negra Louis Farrakhan a tivesse recomendado com sua marcha de um milhão de homens.

Não se pode negar que a maioria dos jovens que se matam em guerras de gangues são minorias. Mas é possível negar que a razão pela qual são violentos e imorais é sua raça. Isso é falso e é um insulto à maioria dos negros e outras minorias que é de pessoas decentes e respeitadoras das leis. Não se pode negar que algumas minorias são em média pouco instruídas e estão sub-representadas nas universidades, e em profissões e trabalhos especializados. Mas é possível contestar que a razão pela qual as minorias estão sub-representadas é o fato de sua raça torná-las geneticamente inferiores e incapazes de competir com a América “branca”. É verdadeiro que muitas das minorias não estão na universidade ou trabalhando como médicos, advogados, professores ou mecânicos de automóveis, etc., devido à sua raça. Foram discriminados e privados de oportunidades de educação e emprego devido ao preconceito racial.

É possível que um dia sejamos capazes de olhar para pessoas de diferentes raças e vê-las como seres humanos sem perder de vista o que há de especial e singular em cada classificação racial ou étnica. Não precisamos ser cegos às cores nem devemos nos esforçar para ignorar as diferenças raciais, mas estas devem ser vistas numa perspectiva adequada: significativas para a nossa formação, mas irrelevantes para nossa condição de seres humanos, capazes tanto dos mais elevados comportamentos intelectuais e morais como de depravação animalesca e de incompetência simplória.

Enquanto isso, deveríamos prestar atenção às palavras de Peter Singer:

… a hipótese genética não implica em que devamos reduzir nossos esforços para vencer outras causas da desigualdade entre as pessoas.

… o fato de que o QI médio de um grupo racial seja poucos pontos mais alto que o de outro não autoriza ninguém a dizer que todos os membros do grupo de QI mais alto tenham QIs mais altos que todos os membros do outro grupo….

E ter um QI mais alto não justifica o racismo (Singer, 1993), ou qualquer outro tipo de -ismo, a propósito.


leitura adicional

  • Existem Raças? Dr. Loring Brace, da Universidade de Michigan, diz “não” e Dr. George Gill, da Universidade de Wyoming, diz “sim”

Allport, Gordon. The Nature of Prejudice [A Natureza do Preconceito] (Addison-Wesley, 1954).

Augstein, Hannah. ed., Race: The Origins of an Idea [Raça: As Origens de uma Idéia], 1760-1850 (Bristol, UK: Thoemmen Press, 1996).

Blum, Deborah .”Race: many biologists argue for discarding the whole concept [Raça: vários biólogos defendem abandonar completamente o conceito],” The Sacramento Bee, 18 de outubro de 1995, p. A12.

Evans, Bergen. The Natural History of Nonsense [A História Natural do Nonsense] (New York: Alfred A. Knopf, 1957), cap. 14, “The Skin Game.”

Fraser, Steve, editor, The Bell Curve Wars : Race, Intelligence, and the Future of America [A Guerra da Curva do Sino: Raça, Inteligência e o Futuro da América] (Basic Books, 1995).

Gould, Stephen J. The Mismeasure of Man [A Medida Equivocada do Homem] (New York, Norton: 1981).

Apreciação de Higgins, A.C. de The Science and Politics of Racial Research [A Ciência e a Política da Pesquisa Racial] de William Tucker

Kincheloe, Joe L. et al. editor, Measured Lies : The Bell Curve Examined [Mentiras Medidas: A Curva do Sino Examinada] (St. Martin’s Press, 1997).

Marks, Jonathan. “Black, White, Other” [Negro, Branco, Outros] em Natural History, 12/94.

Montagu, Ashley. Man’s Most Dangerous Myth: The Fallacy of Race [O Mito Mais Perigoso da Humanidade: A Falácia da Raça], 6a. ed. (Altamira Press, 1997).

Montagu, Ashley. Race and IQ: Expanded Edition [Raça e QI: Edição Aumentada](Oxford University Press, 1999).

Singer, Peter. Practical Ethics [Ética Prática] (Cambridge University Press, 1993).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: